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A Retina e o Espelho



Não sei se sobrevivo até o domingo.

Sonho com paz, mas só há guerra.

Um atentado terrorista nas ruas de Jerusalém

Matou um.

E eu também morro.

Lá longe, onde o céu faz uma curva

É que vou me encontrar.

Ah, quanta pretensão a minha...

E vivo de pretensões...

Amar e ser amada.

Coisas impossíveis para mim.

Por causa do meu coração rasgado

Enfeitado com várias fotos.

Mas alguém chora e fica tudo bem.

Queria te dizer que eu não mereço nenhuma das suas lágrimas

Ainda mais se você for meu único amor.

Chuva, chuva...

Por que esconde o sol?



Escrito por Claudia às 14h08
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Adeus...

Se eu te encontrar de novo

Verei as lembranças daquele tempo que ficou pra trás

Das lágrimas e sorrisos que me fizeram te amar

Tudo aquilo que me fez forte para morrer e existir

O amor é apenas essa ilusão

Uma invenção para colorir os sonhos

Sem nada esperar em troca

Uma coisa que guardamos no fundo do nosso olhar

Para enfeitarmos a vida

E eu sei que te amei

E te perdi

De mim, de nós

Fica pra outra história

Adeus meu grande amor

Que sigo a solidão da sua sombra

Desnuda e perdida.



Escrito por Claudia às 10h34
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Brasília está me deixando esquisita, volto logo pra São Paulo... Eu voltando de ônibus pra casa, lendo um livro pra me distrair, sentindo o cheiro de fantasmas... Fantasmas de Brasília... Não sei se é o sol que não brilha mais como antes, não sei se foi eu quem deixou de brilhar, mas o fato é que sinto que os anos consomem a poesia por aqui, e eu não quero deixar de sonhar... Estou escrevendo um livro que se passa em Warminster, uma cidade que encontrei no Google Earth, no meio da Inglaterra, e já me sinto por lá, distante, distante daqui... Um poema para o meu grande amor, para seus olhos castanhos, para o seu corpo delicioso...

Love isn't a easy word

It brings dreams and make us cry

While I am smoking my cigarette

The ashes cover your breast

Where lay pain and sweat

And my crazy mind

Who sees the deep of your eyes

And the frozen tears

In the rhythm of our desire

 



Escrito por Claudia às 19h29
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CAPÍTULO 4 DO MEU ROMANCE "VAMOS DORMIR, MEU ANJO".

9:00

                Não, os cemitérios não deviam ser tão tristes assim... O ruído dos carros na avenida era abafado pelo ruído do vento revirando as folhas secas espalhadas pelo chão. Caminhei lentamente entre os jazigos, aquele resto de nossa esperança. Eu não chorei no dia em que meu avô faleceu. Estava numa aula tediosa da faculdade e senti vontade de ir embora. Levantei-me da sala de aula, caminhei até o ponto de ônibus e segui em direção à minha casa. Lembro-me de olhar para o céu já escurecido do entardecer. Achei aquilo bonito, senti uma paz. Depois descobri que naquela mesma hora ele tinha falecido. Não consegui chorar, mas não existe um dia em que eu não pense nele, que talvez ainda o abrace em outra dimensão, e que me perdoe por tudo que está escrito nas entrelinhas dos meus romances, tudo aquilo que não consigo disfarçar. Deixo as flores no jazigo de granito e acendo as duas velas. Olho ao redor, sinto um vazio imensurável e uma vontade louca de continuar a viver... Se der tempo.

Acendo mais um cigarro... Talvez o câncer me leve embora mais cedo. Talvez alguém me atire alguma pedra. E diferente da Pitty, não tenho voz para cantar. Apenas escrevo, esperando que alguém me ouça. Que alguém acorde... Não tenho nenhuma resposta, mas sei todas as perguntas, e apenas divago pelo labirinto sem fim de nossos pensamentos secretos. Eu sei que você queria beijar aquela menina, mas ela não te quer, gosta de outra pessoa, porque todos nós preferimos amores não correspondidos preenchendo o segredo de nossos corações. E eu, como expliquei para a minha psiquiatra, gosto de me apaixonar por todas as pessoas, morrendo de ciúmes de cada uma delas, só por vaidade, por pura falta do que fazer. Se eu conseguisse amar um milhão de pessoas podia até ganhar algum prêmio no final, ou apenas um beijo do vocalista da banda de rock.

                - Só porque eu odeio um milhão de pessoas, - diria ele sussurrando no meu ouvido.

                Mas aí acabaríamos fazendo amor, e um milhão de pessoas que eu amava me odiariam também. Deixo o cemitério e paro numa padaria para tomar um café e um pão com queijo. Observo o home atrás do balcão. Sabe-se lá em que está pensando enquanto conta os segundos apertando o pedaço de pão. Talvez naquela mulher que ele odeia tanto por tanto amá-la. Ou talvez esteja pensando na final do campeonato de futebol. Um homem bebia uma cerveja sentado no balcão, enquanto contava o episódio da briga com um vizinho seu ao silencioso atendente distraído com seus próprios pensamentos.

                - Imagina que o meu vizinho queria que eu desse um fim no meu cachorro só porque ele cismou que o pobrezinho está com raiva?, - disse-me olhando bem no fundo dos meus olhos.

                - Ele só estava meio velho, por isso a sua boca fica espumando... É pura baba, entende?

                Paguei o café, o pão com queijo e comprei mais um maço de cigarros. Despedi-me discretamente dos dois homens e fui embora, subindo a rua em direção ao ponto de ônibus. E acendi mais um cigarro.



Escrito por Claudia às 19h09
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CAPÍTULO 3 DO MEU ROMANCE " VAMOS DORMIR, MEU ANJO"

8:00

                A doutora me observa com os mesmos olhos curiosos... Imagino que se pergunte:

                - Como será ser louca assim?

                E eu respondo:

                - Continuo ouvindo vozes.

                - E o que elas dizem:

                - Que vão me apedrejar no meio da rua. E que eu morrerei feito uma rosa, cheia de espinhos.

                - Hum... E por que elas diriam isso?

                - Porque eu não sou nenhuma santa.

                - Em que sentido?

                - Estou sempre me apaixonando por uma pessoa diferente. Por isso, devo partir muitos corações.

                - E isso seria motivo para te apedrejarem no meio da rua?

                - Conhece a Pitty?

                - Quem?

                - Aquela cantora, a Pitty...

                - Sei...

                - Ela fez uma música que diz: “Quem não tem teto de vidro que atire a primeira pedra”.

                - Então é essa música que te faz continuar a viver?

                - Não... Eu só estou te dando um exemplo... Tantas pessoas se apaixonam tanto, não é mesmo?

                - Tudo bem, se você não dividir as contas com ninguém.

                - Por enquanto, não.

                - E se você encontrar uma pessoa que queira dividir as contas com você?

                - Quer dizer que aí eu estaria curada?

                Eu não entendi nada e ela também não. Encerrou a consulta me entregando as receitas para o Zyprexa, o remédio que gratuitamente recebo em casa. Podem falar o que quiser do governo, mas que eles cuidam de seus loucos, ninguém pode negar. Deixei o consultório e acendi mais um cigarro. O que fazer do resto do dia? Voltar para casa e dormir? Encontrei uma moeda de um real quando olhei para o chão, já desanimada. Peguei a moeda e pensei: Por que não fazer de hoje um dia diferente? Podia fazer várias coisas, e a primeira coisa que me passou pela cabeça foi visitar o jazigo da família no Cemitério São Paulo. Para me acostumar com a idéia que serei enterrada ali, quando esse dia chegar, o dia de morrer. Na frente do cemitério havia uma floricultura, nada suntuosa. Olho as flores tristes e me dá vontade de chorar. Compro um vasinho de violetas cor-de-rosa e duas velas. Acendo mais um cigarro.



Escrito por Claudia às 19h08
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CAPÍTULO 2 DO MEU ROMANCE "VAMOS DORMIR, MEU ANJO".

 

7:00

                O ponto de ônibus está cheio. Duas meninas de cabelos descoloridos, até bonitas, um homem de cabelos brancos com o jornal debaixo do braço, duas mulheres carregadas de sacolas, um menino ouvindo música nos seus fones de ouvido. O ônibus passa depois de dez minutos. Subo no ônibus e subo a Sumaré. Sentada num canto nos fundos do ônibus, protegendo meus olhos dos meus erros com óculos escuros. Observo as pessoas nas ruas, converso com Deus através das letras e números das placas dos automóveis. Dificilmente ele me diz um SIM 0001, mas às vezes tem um NTN 0177 (Não tenta não, minha filha única nascida em 1977). É, os sinais estão aí para quem quiser ver. Cada dia é um dia com oportunidades de dar certo, tremendo de medo que tudo dê errado. Vejo as janelas dos prédios que se enfileiram um após o outro. A única razão para tantas pessoas viverem em São Paulo é a certeza que a mulher ou o homem da sua vida, ou ambos, também vivem por aqui, embora com toda a certeza ainda não tenham se encontrado, motivo pelo qual os confundem tanto com os outros de outro alguém. Desço do ônibus no próximo ponto. As ruas estão cheias, caminho tranquilamente até o consultório psiquiátrico, num prédio de fachada de azulejos verdes, precisando urgentemente de uma reforma. Paro na frente do prédio e fumo mais um cigarro. Um mulher com um cachorro preso à coleira também faz o mesmo, enquanto o cachorro cheira o chão, atrás de algum vestígio de outro cachorro. Um táxi para na minha frente.

                - Esperando táxi?

                - Não, moço... Obrigada.

                Abro a porta do prédio e o porteiro de sempre me diz cumprimenta. Atravesso o hall de entrada e subo pelas escadas, até o segundo andar, onde, ao final do corredor, fica o consultório da Doutora Maria Oliva de Siqueira. Abro a porta de vidro e vejo as quatro cadeiras da recepção devidamente ocupadas. Não é possível... Cheguei apenas vinte minutos antes do horário da consulta.

                - Oi... Estou marcada para às 7:50 horas.

                - Você pode aguardar aí fora... A doutora está um pouco atrasada...

                - Ela ainda não chegou?

                - Ela já está chegando...

                Dou uma olhada novamente para os demais pacientes... Percebo que são todos da mesma família. Pai, mãe, adolescente com problemas, e criança temporã. Encosto-me na parede do corredor e tombo a cabeça na parede. Depois de uns cinco minutos a doutora chega, mas nem me cumprimenta. Sigilo profissional. Os quatro pacientes são chamados à sala da doutora. Fico com todas as cadeiras para mim. Sento-me no canto ao lado do abajur que nunca está ligado, puxo uma revista de decoração, e coloco minha bolsa em outra cadeira.

                - Você já quer acertar a consulta?

                - Quanto é mesmo?

                - Duzentos e cinqüenta reais.

                Eu bem que podia ter encarado o vestibular de medicina e ter dissecado alguns corpos, mas isso me parecia demais para minha própria educação. Queria ser apenas escritora, e como fiquei louca, devo acreditar que isso foi um sinal para continuar escrevendo. Escritora e esquizofrênica. Que sorte, meu Deus... Obrigada. Folheio a revista achando um absurdo um sofá de couro custar cinco mil reais. Quantos livros precisaria vender para comprar um sofá desses? “...Meu amor, meu amor... Nunca te ausentes de mim...



Escrito por Claudia às 20h22
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CAPÍTULO 1 DO MEU LIVRO " VAMOS DORMIR, MEU ANJO"

 

6:00

                O despertador tocou e eu olhei desconfiada para o relógio azul na cabeceira da cama. Ouvi o som de alguns poucos passarinhos e miados de algum gato que passou a noite inteira em cima do telhado da única casa que tem nas redondezas do prédio em que moro. Vivendo um dia de cada vez, achei que aquele era um sinal que devia continuar enrolada debaixo do cobertor. O quarto estava escuro. As pesadas cortinas encobriam os primeiros raios de sol. Fiquei mais cinco ou dez minutos sem ouvir meus próprios pensamentos, feito uma pedra jogada à margem do rio, concentrada no barulho hermético de uma cachoeira. Minha mão esquerda estava dormente, e logo o braço inteiro parecia não existir, pesando o vazio no meu ombro. Logo o silêncio foi quebrado com o barulho ensurdecedor do telefone. Ele tocou quatro vezes, depois parou. Fiquei tentando imaginar quem poderia se enganar logo tão cedo. Esse é um horário bom para se cometer o último delito da madrugada. Alguém voltando de uma festa, completamente embriagado, com coragem o suficiente para dizer eu te amo. Tentei aos poucos ressuscitar meu braço esquerdo, e lentamente a cãibra se esvaiu. Abri os olhos lentamente. Ao afastar o cobertor do meu corpo senti o frio absurdo que fazia naquela simples manhã de inverno, sem previsão de chuva, segundo a meteorologia. Meus pés gelados tocaram o chão revestido com tacos de madeira. Por que diabos a psiquiatra só tinha esse horário vago na agenda do mês? E eu, boa louca que sou, preciso mesmo da receita do remédio, só para aliviar meu próprio tédio, inventando conversas que estão à beira do abismo. Caminhei até o banheiro, coloquei logo as lentes de contato, boiando na solução de soro fisiológico, e me olhei no espelho. Será que daqui dez ou quinze anos não me reconhecei mais? Não sei se serão os olhos, ou o cabelo, ou as rugas. Alguma coisa ainda vai mudar... Talvez o nariz, que nunca me agradou muito, ou talvez fique ainda mais dentuça. Abaixo a calcinha e me sento no vaso sanitário. O xixi sai lentamente, por alguns segundos. Pego um pedaço de papel e me enxugo. E me lembro da minha mãe me obrigando a usar protetores íntimos para não deixar cheiro na calça jeans. Dou uma olhada no fundo da calcinha e chego à conclusão que para mim tanto faz. Com cheiro ou sem cheiro. E que não existe xixi melhor do que aquele que vem depois de duas ou três garrafas de cerveja. Levanto-me do vaso sanitário e volto para o quarto, pegando a primeira calça jeans que eu vejo pela frente. Uma que não me aperte tanto a barriga, porque não paro de engordar... Gramas insignificantes ao final de cada semana, em todas as semanas dos últimos anos, o que somadas já me rendem alguns quilos. Visto uma blusa de alcinhas branca e coloco um casaco preto, bem quentinho. Visto minhas botas de couro e vou até a janela, fumar o primeiro cigarro do dia. Abro as cortinas, a janela... É... São Paulo amanheceu bonita nessa sexta-feira. Um céu azul e frio, muito ensolarado. Acendo um cigarro e logo me engasgo com a fumaça. Alguns cigarros antes eu não passava tão mal assim, mas insisto... É companhia para as boas intenções, mesmo que nem sempre eu tenha boas intenções. Vou até a cozinha, preparo uma xícara de café no microondas. Como um pedaço de bolo de chocolate, que eu comprei ontem na padaria. Fico ali, na cozinha, sentada na cadeira, distraída com o vazio da minha mente. Tento me recordar do que já me fez feliz, e retorno à imagens da adolescência, quando tudo era gratuito. Quando se podia amar sem pecar. Quando as lágrimas me pertenciam, egocêntricas em sua dor. E me lembro que hoje eu passo a caneca, de mão e mão, para saber que ajunta mais lágrimas. Coisas que a minha psiquiatra nãos abe explicar. Levanto-me da mesa da cozinha, vou até o banheiro escovar os meus dentes. A pasta de dentes está quase no final, preciso me lembrar de comprar outra. Pego minha bolsa e tranco a porta do meu apartamento. Daqui até o térreo são apenas quatro andares. Desço pelas escadas mal iluminadas. Ao sair do prédio, passando pela portaria, cumprimento o homem por trás do balcão, já há tantos anos porteiro atrás daquele balcão. Caminho pela calçada em direção ao ponto de ônibus. Desço dois quarteirões até lá, as ruas quase vazias, embora todo mundo está indo trabalhar... Menos eu, que sou escritora e não faço nada nessa história... Apenas escrever e vender meus livros em bares da cidade. Quase sempre alguém se interessa pelas minhas histórias, mas nunca me dizem depois o que foi que acharam no final das contas. E assim, escritora anônima, pulando entre as páginas de diversas histórias. Fumando um cigarro ao final de cada capítulo.



Escrito por Claudia às 18h15
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Poema para o Paulo

 

Será que somos tão felizes assim

Por termos encontrado a resposta certa para nossas almas

Você me beija o tempo todo

E como é cínico...

Eu tenho certeza de que fez aquela poesia pra mim

Não tinha outro na cidade

Só pode ter sido você

Ou me ama muito ou está cheio de demônios

Aí eu te perdôo

Também não sei quem eu sou

A minha miséria é tremenda

E ser pobre ao teu lado

Só se a nossa riqueza fosse imensurável

A riqueza do seu sorriso dentro de mim

Rindo, seu cínico...

 

Poema para Paul

Our endless story...

Where it begins?

In the lonliness of our shelter

These shadows of betray

Where your tears don't cry

Waiting to the final scene

When we die every day

I'm blind, my love

And I only could see your eyes

Fading when the fear grows

When we have only the warm of our bed

To control our pain



Escrito por Claudia às 23h43
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É pra marcar o dia de hoje num calendário com caneta vermelha? Sabe, Brasília nem é tão grande assim, não é mesmo? Nos encontramos todos os dias, no mesmo lugar, eu, que arrasto a sua sombra comigo, a sua sombra que ri, que chora, que me ama, que me odeia, e se parar para pensar, muito além do embaraço de nossos olhares ao se cruzarem... Eu acho mesmo que nos odiamos... Aí, nessa noite de sexta-feira, eu fumando um cigarro, passeando por entre os espaços da mostra de decoração, eu te encontro... E você me apresenta a sua namorada, e eu não consigo disfarçar que não consigo olhar direito para a sua cara... Ela é bonita, mas meu namorado acha que eu sou bem mais, e me diz... Não olha para eles, não olha... Hoje eu te queria só minha... E aí ele faz aquele bico que me enche de amor próprio, e eu fico pensando... Ah... Como eu sou leviana mesmo... Um homem nu deitado na minha cama e eu olhando para o namorado de outra, apesar do meu extenso currículo de amante oficial de um monte de sujeitos... Mas eu vou logo te avisando: Eu nunca vou ser sua amante... Até porque, isso é coisa de gente cínica, e você, meu amor, se for cínico assim eu juro que te mando pro inferno... Então prefiro... Vá para o céu com a mulher que você quiser, que eu vou pro inferno com o meu amante cínico, se ele não for você, é claro... Beijos...



Escrito por Claudia às 23h32
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Ela lhe perguntou se ele não estava a fim de tomar uma cerveja num bar de alguma esquina de Perdizes, porque, bom, era perto do apartamento de dois quartos que ela morava. É que ela não se sente muito segura saindo sozinha por aí, alguém pode não gostar de alguma de suas sombras, esses fantasmas que ela arrasta, a maioria sugada de algum programa de televisão. Ele não estava certo se gostaria de lhe encontrar, mas bem, seriam só algumas cervejas e a conversa podia ficar interessante. Bom... Por que não? Paulistanos são sempre solitários, apesar de viverem rodeados de gente, e bem, ele tinha suas histórias, e ela também tinha suas histórias, apesar de serem apenas histórias, parecidas com as que vemos nos filmes europeus. Histórias de jovens entediados que bebem além da conta e sempre vão parar na cama de alguém. Bom, talvez nenhum dos dois gostariam de se lembrar dessas histórias, nem mesmo depois de três ou quatro cervejas. Então combinaram de se encontrar num bar de uma esquina de Perdizes. Ele foi de ônibus e ela foi à pé, fumando um cigarro dentre os muitos que ela já desperdiçou. Dificilmente se fuma um cigarro interessante, mas assim mesmo ela foi, fumando o seu cigarro. Chegou dez minutos antes da hora combinada, e se sentou numa mesa no canto. Ficou se lembrando de quando resolveu que seria pintora e tentava vender seus desenhos naquele mesmo bar. Ela cobrava apenas dez reais pelo desenho, que na verdade eram pinturas em acrílica ou aquarela, mas nunca ninguém comprou um único desenho. Uma vez chegou até a sentar-se no chão numa feira de sexta-feira, e no meio das barracas de cenouras e batatas, espalhou seus desenhos pelo chão. Novamente não encontrou um único comprador. Depois de vinte minutos ele chegou, esboçando o mais tímido dos sorrisos. Vestia uma camiseta branca e uma calça jeans. Ela não reparou nos seus sapatos, assim como esperou que ele na percebesse que suas unhas estavam sem pintar. Beijaram-se de leve, no rosto, e depois se sentaram, um ao lado do outro. Pediram duas cervejas e acenderam-se os cigarros. Ela lhe contou que estava cansada do trabalho, que ganhava dois mil reais por mês para ajudar seu chefe na administração de uma obra na Avenida Faria Lima. E que ela morria de medo de entrar naqueles elevadores, que levavam até o alto do décimo andar, apesar de serem de última geração.

            - Acredita que o elevador não tem nenhum botão por dentro?

            Onde essa tecnologia absurda levaria o homem? Depois apaga a luz no temporal e ficam todos à mercê de suas invenções. Mas bom, do que mais ela podia falar? Ele estava quieto, observava-a discretamente. Seria melhor avisa-lo de que não é nenhum anjo, por mais que tente. Mas que tinha achado ele um menino legal, desses que podiam acompanhá-la num filme no Espaço Unibanco da Avenida Augusta, e que depois passeariam de mãos dadas pelas ruas. E que mais tarde dividiriam uma garrafa de vinho, observando as luzes da noite se acender. Só porque estavam em São Paulo. Essa cidade de carrinhos solitários que param nos cruzamentos de cada esquina. Que mais? Ah... Eu estou lendo um livro absurdo, sobre uma guerra entre espiões judeus e árabes. Não foi nada romântico, está bem... Encontrei um poema lindo na internet, de um escritor polonês chamado Mickiewicz.

            Dearest love, let me die with you,

            In the deep earth lie with you,

            For this world is dark and dreary,

            I am lonely and weary!”

            E lhe disse que só gosta de escrever porque precisava viver outra vida, ser outras mulheres, ter outros amantes, conhecer outros lugares... E que ninguém entendia isso, que buscava se elevar em suas próprias palavras. E que achava que o conhecia de algum dos romances que escreveu. E isso era bom, isso era ruim. Não sabia se ele era exatamente assim. Mas ele sorria, fumava mais um cigarro. E ele lhe disse que gostava de pintar, e isso ela já sabia, viu seu trabalho na internet. Mas não quis lhe contar que imprimiu um desenho numa folha grande e guardou dentro de um caderno onde ela escreve suas impressões de sua vida verdadeira, das coisas reais. Escreve quando está triste, quando está com medo, quando está apaixonada. No fundo ela só queria um beijo, apenas um beijo nesse mundo blasfemado, onde todos já se esqueceram da poesia de um beijo. E finalmente lhe disse: Eu sou apenas uma escritora, se quiser, guarde minha cartinha humilde, senão, como você mesmo me disse, largue em cima de uma mesa de bar, para ela se perder por aí...



Escrito por Claudia às 21h19
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Não posso te amar

Talvez nem queira

Meu coração chove todas às vezes que corrompo meus sonhos

Fantasias eu encontro em qualquer esquina

E vivo mundana, deslizando meu corpo sobre meu derradeiro amor

Somos fracos, caminhamos esperando a morte

E a morte vem também por te desejar

Porque percebi que seus olhos também são azuis

Como o mar que não cansa de me sangrar

E dizem: Saboreie o sal das suas ondas

E eu não quero

Quero te afastar de mim

E ver quem resta no final do carnaval

Por que aí sim, não terei para onde fugir

E deixarei meus lábios desbotados

Sugar a língua de quem mais me amou



Escrito por Claudia às 21h16
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São 15:48 horas de uma tarde ensolarada no Cairo. O hotel fica no centro da cidade, às margens do Nilo. Hoje eu acordei cansado. O show de ontem à noite foi exaustivo. Não sei o porquê, tudo parecia me consumir, eu olhava as pessoas na platéia e me sentia fraco, como se estivesse vendo um mesmo filme de anos atrás, sabendo já o final, que veio antes da hora programada, por que eu já estava quase desmaiando no palco, sem que ninguém, evidentemente, pudesse perceber. Queriam me levar para uma festa, uma dessas festas cheias de fotografias para as publicações locais, e mesmo dizendo que não estava me sentindo bem, acabei indo para lá, escoltado por seguranças que nunca vejo. A festa era suntuosa, cheia de pessoas importantes do Cairo, pessoas milionárias, escondendo seus muitos desejos por trás de suas fantasias. Ofereceram-me bebida, o que parece proibido por aqui, e eu logo me embriaguei, o suficiente para conversar sozinho, sumindo de mim, às vezes, observando as mulheres lindas sem muita intenção, atento a cada flash que tentava me fotografar distraído. De madrugada me levaram de volta para o hotel, no vigésimo terceiro andar. Assim que entrei na suíte, desabei sobre a cama, afundando a minha cabeça nos travesseiros de fronhas brancas. Estava enjoado, suado, mas não conseguia me mover dali. Nessas horas eu sempre penso nela, na nossa distância material, apesar de deslizarmos um sobre o outro, seus pensamentos sempre na minha mente, descrentes e afetuosos. Depois de alguns minutos, quase fechando os olhos, achei que ela me queria, por isso tirei a camiseta e a atirei no chão, abraçando-a com força, beijando seu corpo em silêncio, molhando a língua nos seus beijos, esperando, apenas esperando... E eu sempre choro depois do gozo, por querer tanto assim... Seu suor doce, suas cicatrizes depois do último inverno, seu desejo violado. As lágrimas embaçavam a visão que eu tinha daquela cidade amaldiçoada por tantas gerações, escondendo seus demônios no vão entre seus habitantes e sua fé. Peguei uma caneta, abri um caderno de capa azul e escrevi o que vinha na minha mente, naquele instante de sacrilégio:

Ten hours are not enough...

They pass like the wind

And they do not bring me a flower

A flower like your jolly desire

That covers the shadows of my sins

And let me be just like the sun

Fading in silence at the end of the day

Just for the time of human beings

Not for Thee.

 

Larguei a caneta no chão, ao lado do caderno… Já passava das cinco horas da manhã e aos poucos as luzes da cidade se apagavam. Quando se está sozinho só nos resta acreditar em sua existência, quando muitos já se esqueceram de procurar um sentido para a sua velada atemporalidade. E na sua inocência... Talvez já exaltada em páginas e páginas de tantos escritores.  Um grito solitário de noites frias e amargas, quando lhes resta apenas sonhar. E aí onde eu estou, a solidão é a mais cruel das armaduras, o metal que cinge o coração, arrastando o mal por ruas vadias. Levantei-me da cama e fui até o banheiro. Meu rosto mostrava os sinais da fadiga. Liguei o chuveiro e me enfiei debaixo da água quente. Dava para ver o deserto no horizonte além. Sentei-me no chão e tentei esvaziar a minha mente, já tão confusa de egos e erros. A vida de amanhã, o que nos resta? Sombrios e turvos... Queria que você estivesse aqui, brincando com nossos corpos, rindo feliz da possibilidade do amor. Nossos corpos pálidos arranhados de prazer.



Escrito por Claudia às 18h54
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De volta à Brasília... Quase não preguei os olhos durante a viagem... Voa, voa de novo... Mas o nascer do sol me encheu de esperança, aquelas cores rosas no céu. E teve mais uma coisa... A primeira visão de Brasília... O céu azul, o verde rodeando pequenos pontos quase brancos na capital, e pela primeira vez percebi como somos pequeninos nesse mundo, reduzidos à pequenos pontos... Será Deus aquele mesmo que conhece nossas rugas, assim, tão de pertinho? Eu vou tentar de novo... Recomeçar... O tempo passa, a vida escoando pelas mãos... Queria fazer uma prece... Que sejamos novamente fortes, eu e ele... Esse desespero precisa acabar, meu amor... Não se assuste tanto assim, você que me segura pelas duas mãos... Sejamos...



Escrito por Claudia às 18h34
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Uma garrafa de vinho é sempre bom para escrever... Posso estar aqui, posso estar em qualquer lugar. São Paulo assusta durante a madrugada. Os carros parados em cruzamentos de ruas desertas, onde a indicação é apenas uma placa velha na esquina. Existem muitos meninos e muitas meninas por aqui, e fico imaginando seus poemas secretos para aqueles que amam tanto. O amor, essa coisa incerta que nos faz desejarmos outros corpos. Um desejo que sempre vem com a inspiração, e lentamente nos arrasta para abismos desconhecidos, por simplesmente pura vaidade. O que eu desejo em você sempre fica em mim, e não sai quando eu esfrego o sabão debaixo do chuveiro, e aí dá um desespero que vira um ódio que eu não sei sentir, ódio que só cabe nos contos de terror, quando olho para o lado, no limiar entre a ilusão e a realidade, e lá está ele, o infeliz diabo, no meio de fumaças que esvanecem a sua face, debaixo da máscara que me seduz. Aí ele me assusta quando vê passando nas ruas, tantos demônios iguais à ele, e até piores, demônios de carne, sem nada a perder. DEveríamos ser melhores conosco, ter mais compaixão... A ilusão da paz e da esperança ainda enche meus olhos de lágrimas, e ai... É difícil rezar, mas tento acreditar...



Escrito por Claudia às 17h57
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Que horas são? Faz calor... Acordo ausente de mim mesmo, como se uma parte de mim tivesse ficado lá, voando sobre as catedrais de uma cidade anônima. Levanto-me da cama e procuro um cigarro no que restou da noite de ontem. Um livro sobre a mesa da sala, a garrafa de vinho vazia, muitas cinzas espalhadas sobre o tapete. Olho o violão no canto, esquecido dos meus poemas. Sim, eu sei rezar, mas não acredito em santos. Embora cada homem que caminhe agora pelas ruas, provavelmente distraído, tende a acreditar que é um homem santo, mesmo que seu revólver de vez em quando mate. Bom, que diabos... O cigarro se esvai lentamente. Hoje... Eu queria te amar hoje, mas onde você está? Nas páginas do livro eu te vejo aqui, eu te vejo lá. Talvez não saiba fazer amor, talvez não queira nem tentar. Por que se despe com facilidade, tem o corpo bonito apesar dos anos que consomem os seus sonhos. E eu sei que eles estão por aí, todos os homens que amou. Uns que acreditaram, outros que deliraram e te fizeram sofrer. Mas me diga, quem seria este? Passei a noite inteira tentando lembrar de uma música que te fizesse sorrir. Não encontrei nenhuma. Todas falam da maldição de pecar, e você se embriaga durante a madrugada, pecando e muito. Quando acorda sente vontade de arrancar a pele, tirar da alma tudo o que fez de errado, todas as palavras que nunca deram certo. E aí eu sinto os seus lábios... Também queria me vingar de você, de um jeito estúpido, que te fizesse me amar por tudo o que sou. Tenho os olhos castanhos, não são tão azuis quanto os seus, nem tão medrosos. Vejo sua pele branca querendo se tornar virgem de novo, para merecer um par de asas de santa. Uma santa que quase não acredita em Deus, porque assiste pela televisão todos morrerem sem antes lhe conhecer, sem que antes você possa interceder. E por isso se esconde... Afunda o corpo no seu travesseiro, desesperadamente sentindo prazer. Quantos homens poderiam te tocar assim, riscando no seu corpo o verdadeiro amor? Paciência, você não acredita em mim. Sou louco. Desvairado, deitado sobre o seu ventre, depois de tomar seu êxtase. Acendo outro cigarro... Você achou que eu não sabia exatamente o que te dizer? Eu sei sim, meu amor... Escrevo poemas em guardanapos nos bares que abrem quando para você já é madrugada. Quando você ouve o barulho do último trem, vibrando as janelas do seu pequeno apartamento. O que você está fazendo agora? Já bebeu um pouco? Eu te imagino quando perde a consciência e desaba sobre a cama, tirando cada peça do corpo para se enroscar em si, para abraçar-se com força e se sentir amada. Dizem que o amanhã é diferente, dizem que amanhã você cai em si e começa a rir. Ah... Não sei se agüento todas as suas risadas, cada uma mais desvairada. Não... Não comece a chorar... O diabo não te merece... Você sabe que nem ele se agüenta... Veja... Aqui tem uma flor... Não é igual às que já te compraram antes da meia-noite, só para te levar... Essa é da cor dos seus sonhos, dourada, com cheiro daquele perfume que ainda não inventaram.  Feche as janelas... Termine de fumar o seu cigarro... Estaremos do lado de lá assim que o sol se pôr.



Escrito por Claudia às 19h13
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